Maurício Pandolphi

Por favor, façam alguma coisa!

Quarta, 10 de dezembro de 2009

Tive um pesadelo à noite. Sonhei que corria desesperado pelos corredores do Congresso Nacional e da explanada dos ministérios, em Brasília, batendo em muitas portas, à gritar:

 

- Onde estão os honestos?! Onde estão os honestos?!

 

Todas as portas se mantinham fechadas e eu não conseguia encontrar um único honesto. Acordei suado, em pânico, certo de que o mundo iria se acabar, submerso em lixo e podridão. Foi um dos piores pesadelos que já tive na vida, podem ter certeza os meus poucos leitores. Passado o susto, refleti e descobri que a noite mal dormida se devia à indigestão provocada na véspera pelo consumo exagerado de reportagens televisivas, onde se viam políticos e auxiliares corruptos enchendo as cuecas e as meias de dinheiro, no “Arrudagate” no momento.  Foi um sonho estranho, considerando que já me julgava vacinado contra o espanto que tais fatos repetidos podem provocar.

 

Conheço razoavelmente Brasília, pois lá trabalhei por certo período, há bem pouco tempo. Andei muito pelos tais corredores, os mesmos que reapareceram agora em meu pesadelo, e sei que por detrás das portas que neles se alinham pode acontecer de tudo. Assim o susto provocado pelo pesadelo foi uma surpresa, que ainda fere o ego deste jornalista  vivido e calejado.

 

Depois, relembrando o sonho mau, perguntei-me se não estaria sendo injusto com alguns políticos que conheço e com os quais convivo profissionalmente. Meu pesadelo generalizou a imagem da categoria, visto que no mau sonhar nenhuma porta se abriu, exibindo pelo menos um único honesto. Foi um pesadelo, claro, e tal coisa não se controla. Na verdade, entre os políticos de meu relacionamento há honestos e íntegros e por alguns deles chego a por a mão no fogo.

 

É a eles que me dirijo em especial neste artigo, portanto.

 

Por favor, façam alguma coisa! Evitem que cidadãos crédulos como eu tenham pesadelos pavorosos à noite, por acharem que este país não tem mais jeito e submergirá num mar de lama, numa espécie tupiniquim de “21 de dezembro de 2012” antecipado. Salvem a si próprios e à dignidade da atividade política, eliminando do seu meio essa gente desonesta, que teima em locupletar-se impunemente!

 

E o façam rápido, porque o Brasil já não suporta tamanha desfaçatez. Sei que é difícil eliminar hábitos indesejáveis, que vem sendo cimentados há séculos, mas pelo menos tentem! Sei que tudo começou muito tempo atrás, quando Caminha marotamente pediu ao rei de então um empreguinho confortável e bem remunerado para um parente preguiçoso, já na primeira carta escrita na terra de “Vera Cruz”, mas não desistam de tentar!

 

Tenho quase sessenta anos e já vi mais do que deveria ter visto em termos de maracutaias. Ví generais arrogantes falando antes sobre moral em público, para depois se esbaldarem no dinheiro do estado. Vi seus opositores bradando palavras de ordem, de liberdade e de ética também em público, para depois chafurdarem nos mesmos vícios privados de seus antecessores. Tenho visto em demasia, sobretudo, a passividade de um povo – e faço parte dele! – e sua incapacidade em mudar o caráter da política nacional.

 

Se fossemos elaborar os seguidos escândalos que vêm sangrando a paciência dos brasileiros perderíamos o pouco que dela ainda nos resta. Anda criança vi o escândalo do “açúcar”. Alguém se lembra dele? Pois é, tivemos um assim. Ninguém envolvido foi preso. Vi depois o escândalo da ponte “Rio-Niterói”. Esqueceram-se dele? Pois é, ele existiu e os que enriqueceram graças a milhares de toneladas a mais de concreto estão livres até hoje. Tivemos até um escândalo do “feijão” por aqui mesmo, nas plagas potiguares. Ainda se lembram dele? Caso afirmativo, então devem se recordar que ninguém foi preso também.

 

Há escândalos e mais escândalos, de todos os tipos, tamanhos, formatos e malignidade e apenas citei estes ínfimos três. Quem se der ao trabalho de repassar ano a ano os calendários do passado da “Terra Brasílis” verá que não existe um único ano em branco. Procurem e encontrarão sem dificuldade algum caso mais destacado de malversação do patrimônio público.

A história que vem sendo escrita por nós brasileiros infelizmente também reserva amplos espaços para tais fatos indesejáveis, incompreensíveis e abomináveis. No entanto, ano após ano, a ela se acrescentam novos escândalos. Nem sempre há imagens de corruptos pondo a mão na massa ou escondendo-a em meias e cuecas, mas os escândalos se sucedem infalíveis, como primavera, verão, outono e inverno.

 

Quantos irão parar na cadeia após o “Arrudagate”? Tendo a pensar que não haverá punidos, assim como ainda não houve entre os envolvidos no “Mensalão”. A impunidade parece trafegar fácil entre situação e oposição, em ciclos que se renovam e se repetem, misturando todos os entes políticos no mesmo mingau azedo que os brasileiros são obrigados a engolir depois.

 

Refaço agora o apelo que fiz aos que indevidamente inseri em meu pesadelo. Por caridade, joguem no lixo o corporativismo, renovem seu patriotismo e façam alguma coisa!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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