Maurício Pandolphi

Em nome dos sofredores no trânsito

Quinta, 06 de novembro de 2009

Nós, cidadãos desta ainda aprazível cidade, pedimos encarecidamente às autoridades responsáveis pelo trânsito na Grande Natal, que em regime de urgência urgentíssima implementem ações eficazes e inteligentes, que contribuam para a sua melhoria.  Comunicamos ainda que já não suportamos mais o caos em que ele vem se transformando, em níveis cada vez mais crescentes. Solicitamos também que as referidas autoridades evitem com todo o empenho possível cometer os mesmos velhos erros de planejamento e gerenciamento que contribuíram, ao longo das últimas décadas, para tornar um verdadeiro suplício o ato de dirigir por alguns pontos críticos de nossas ruas, avenidas e rodovias.

 

Atrevo-me a expressar o apelo acima em nome de todos os demais infelizes que sofrem como eu, na certeza de que eles me darão irrestrito apoio.   Não o faço por me julgar dono da verdade ou pretender ser um porta voz de quem não me concedeu esse direito, mas sim porque acredito que o sentimento que nutro é semelhante ao de milhares de outros cidadãos, obrigados, como eu, a conviver com engarrafamentos, lentidão, perigo de acidentes e o stress insuportável que isso tudo provoca.

 

Feito o desabafo inicial, passo a comentar alguns aspectos que podem ajudar a entender porque os problemas do trânsito na capital do estado vêm se agravando dia a dia. Na verdade, eles não diferem em nada do que se verifica em qualquer grande cidade brasileira na atualidade. Para mim, o maior de todos os problemas está no incompreensível modelo de desenvolvimento econômico adotado no país, que concentra nas capitais quase que a totalidade dos recursos materiais e financeiros disponíveis.

 

É nas capitais que vêm se acumulando há décadas todas as estruturas de produção industrial e comercial do país. Não temos no Brasil o modelo econômico norte-americano, europeu e até asiático de desenvolvimento, que favorece o fortalecimento das pequenas e médias cidades do interior, criando condições especiais para que nelas também se abra espaço para a geração de emprego e renda.

Com isso, sabiamente tal modelo evita a migração da população do interior para os grandes centros urbanos, reduzindo a possibilidade de formação das megalópodes e de sua absurda voracidade por grandes infra-estruturas.

 

Outro fator crucial é o descaso de nossos governantes na implantação de modelos de  transportes coletivos eficientes e democratizados. Aliás, nesse aspecto a ação do estado brasileiro tem se inserido no plano da pura e criminosa irresponsabilidade. Muito já se tem dito sobre isso e não vou me alongar nesse item. Não é necessário ser especialista em trânsito para perceber o sacrifício que representa ir de casa para o trabalho e vice-versa num dos típicos ônibus urbanos brasileiros.

 

Finalmente, há que se falar em planejamento do crescimento urbano. Nesse aspecto tivemos todas as oportunidades de ver Natal crescer de forma harmônica e planejada. Quando a cidade iniciou sua expansão urbana, unindo-se fisicamente aos municípios vizinhos, no final dos anos 1970, já se tinha uma noção precisa das medidas profiláticas que deveriam ser adotadas, com base nos exemplos fartos encontrados em outras capitais brasileiras, incluindo São Paulo, modelo completo quando se fala em desatinos urbanos. Nada se fez, entretanto.

 

Pior que isso, quando se fez, foi para piorar. Cito  dois exemplos que simbolizam a aversão de nossos administradores em colocar em prática as boas idéias. O primeiro deles é a recente modificação implantada na avenida Bernardo Vieira, que não apenas não resolveu a séria questão do trânsito entre o centro da cidade e a Zona Norte como exterminou a atividade comercial ao longo daquela via.

 

 No outro exemplo tive participação direta, dez anos atrás. Há época eu apresentava um programa de debates numa emissora de TV local, que levou ao ar uma discussão sobre o projeto do túnel que seria construído sob a BR101, em Neópolis, visando desafogar o já então crescente tráfego entre o centro de Natal e a Zona Sul da cidade. Quando perguntei ao representante do então DNER porque não se fariam duas pistas de tráfego no túnel, ao invés de apenas uma, a resposta foi que a única pista projetada seria suficiente para a demanda de tráfego prevista para o futuro.

 

Basta andar hoje na BR101 naquele trecho para se constatar que a segunda pista no túnel  evitaria  agora a necessidade de um dos mais perigosos semáforos existentes em Natal, onde diariamente se reproduzem acidentes dos mais variados tipos e se criam congestionamentos infindáveis.

 

Por onde quer que se ande pela cidade observam-se os erros de planejamento do trânsito ou a falta dele, em maior ou menor proporção. Pelo visto bom senso, visão de futuro e pragmatismo são virtudes raras entre os que determinam se vamos sofrer ou não quando saímos ou voltamos para casa.

 

Ao bem da verdade, tenho por mim que a ausência de tais virtudes infelizmente se repete em outras  áreas de nosso interesse enquanto cidadãos.

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